{"id":2426,"date":"2025-09-24T15:06:01","date_gmt":"2025-09-24T18:06:01","guid":{"rendered":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/?p=2426"},"modified":"2025-09-24T15:06:03","modified_gmt":"2025-09-24T18:06:03","slug":"cronica-de-uma-licitacao-anulada-licoes-do-acordao-1923-2025-do-tcu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/cronica-de-uma-licitacao-anulada-licoes-do-acordao-1923-2025-do-tcu\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA DE UMA LICITA\u00c7\u00c3O ANULADA: LI\u00c7\u00d5ES DO AC\u00d3RD\u00c3O 1923\/2025 DO TCU"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>1. INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agentes p\u00fablicos que atuam na linha de frente das contrata\u00e7\u00f5es, convivem diariamente com a tens\u00e3o entre a urg\u00eancia do interesse p\u00fablico e o rigor dos ritos processuais. Cada edital publicado \u00e9 uma promessa; cada contrato assinado, a materializa\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o coletivo. Mas o que acontece quando a jornada, aparentemente bem-sucedida, desmorona por um detalhe que, \u00e0 primeira vista, parecia apenas zelo, mas que, sob o escrut\u00ednio do controle, revelou-se um v\u00edcio fatal?<\/p>\n\n\n\n<p>Esta cr\u00f4nica se debru\u00e7a sobre a hist\u00f3ria real de uma Concorr\u00eancia, conduzida por uma Secretaria Estadual de Infraestrutura para a constru\u00e7\u00e3o de um hospital metropolitano, uma obra estimada em mais de R$ 241 milh\u00f5es. \u00c9 a hist\u00f3ria de como as tr\u00eas propostas mais vantajosas foram sucessivamente eliminadas, levando \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o da quarta classificada, e de como o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), ao analisar o caso no Ac\u00f3rd\u00e3o n\u00ba 1923\/2025 \u2013 Plen\u00e1rio, n\u00e3o apenas anulou o contrato, mas nos legou um roteiro riqu\u00edssimo sobre a aplica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e inteligente da Lei 14.133\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao desvendar, ponto a ponto, os atos que levaram a esse desfecho, n\u00e3o buscamos apenas apontar erros, mas extrair li\u00e7\u00f5es valiosas. O objetivo \u00e9 transformar este caso concreto em uma ferramenta de aprendizado, um espelho para nossas pr\u00f3prias pr\u00e1ticas, a fim de que possamos construir editais mais justos, competitivos e, acima de tudo, eficazes na entrega de valor \u00e0 sociedade que servimos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. A ANATOMIA DE UMA CONTRATA\u00c7\u00c3O FRUSTRADA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender a profundidade das li\u00e7\u00f5es contidas no Ac\u00f3rd\u00e3o 1923\/2025, \u00e9 preciso primeiro reconstituir a cena do certame. A licita\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do Hospital Metropolitano do Rio Grande do Norte atraiu grande competitividade. Ao final da fase de lances, o placar era promissor para a Administra\u00e7\u00e3o. A classifica\u00e7\u00e3o das quatro primeiras empresas, por ordem de pre\u00e7o, era a seguinte (BRASIL, 2025):<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Empresa 1:<\/strong> R$ 197.489.000,00<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Empresa 2.:<\/strong> R$ 197.490.000,00<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Empresa 3.:<\/strong> R$ 200.500.000,00<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Empresa 4<\/strong> R$ 200.777.000,00<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>A disputa acirrada, com valores muito pr\u00f3ximos, indicava um ambiente de mercado saud\u00e1vel. Contudo, o que se seguiu na fase de habilita\u00e7\u00e3o transformou a promessa de economicidade em uma sucess\u00e3o de elimina\u00e7\u00f5es que culminaram na contrata\u00e7\u00e3o de uma proposta mais de R$ 3,2 milh\u00f5es acima da segunda colocada.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro a cair foi a Empresa 1. Em seguida, a Empresa 2. A terceira colocada, Empresa 3, convocada, sequer apresentou sua documenta\u00e7\u00e3o de habilita\u00e7\u00e3o no prazo. O caminho estava, assim, pavimentado para o quarto colocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa sequ\u00eancia de eventos acendeu o alerta do controle. N\u00e3o se tratava de uma elimina\u00e7\u00e3o pontual, mas de um padr\u00e3o que, segundo o denunciante, poderia indicar um direcionamento do certame. Foi nesse cen\u00e1rio que o TCU iniciou sua an\u00e1lise, mergulhando fundo nas justificativas de cada ato administrativo. E \u00e9 nessa an\u00e1lise que as li\u00e7\u00f5es para a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica come\u00e7am a emergir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. O PRIMEIRO ATO: A QUEDA DO VENCEDOR E A RIGIDEZ DO EDITAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A inabilita\u00e7\u00e3o da primeira colocada, a Empresa 1, girou em torno de um elemento com o qual todos os agentes de contrata\u00e7\u00e3o, lidam constantemente: a dilig\u00eancia para sanear falhas. A empresa havia apresentado sua documenta\u00e7\u00e3o de habilita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de forma ileg\u00edvel. A comiss\u00e3o de licita\u00e7\u00e3o, corretamente, instaurou uma dilig\u00eancia para que os documentos fossem reenviados de forma leg\u00edvel. O ponto de disc\u00f3rdia foi o prazo: aproximadamente duas horas.<\/p>\n\n\n\n<p>A licitante n\u00e3o cumpriu o prazo e, de forma intempestiva, alegou que sua interpreta\u00e7\u00e3o do edital indicava um prazo de 24 horas. A defesa parecia plaus\u00edvel, mas uma an\u00e1lise minuciosa do edital, endossada pelo TCU, revelou o equ\u00edvoco. Conforme destacou o titular da unidade t\u00e9cnica do Tribunal, o edital continha regramentos distintos para situa\u00e7\u00f5es distintas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Item 6.4.1:<\/strong> Previa um prazo de at\u00e9 24 horas, mas especificamente para corre\u00e7\u00f5es na <strong>proposta de pre\u00e7os ou planilhas de custos<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Item 9.1.2:<\/strong> Por outro lado, estabelecia o prazo de at\u00e9 duas horas para o envio da <strong>documenta\u00e7\u00e3o de habilita\u00e7\u00e3o<\/strong> ap\u00f3s a convoca\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A falha da Empresa 1 n\u00e3o era um erro material na planilha de pre\u00e7os, mas sim um v\u00edcio na apresenta\u00e7\u00e3o dos documentos que comprovariam sua capacidade de executar o contrato. Portanto, a regra aplic\u00e1vel era a do item 9.1.2. A dilig\u00eancia, nesse contexto, n\u00e3o era um direito absoluto da licitante, mas uma oportunidade saneadora conferida pela Administra\u00e7\u00e3o, cujo prazo estava claramente definido no &#8220;mapa&#8221; da licita\u00e7\u00e3o: o edital.<\/p>\n\n\n\n<p>O TCU concluiu, assim, pela <strong>legalidade e legitimidade do ato de inabilita\u00e7\u00e3o<\/strong> do primeiro colocado. A Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, nesse caso, agiu corretamente ao se ater ao princ\u00edpio do julgamento objetivo. Flexibilizar o prazo para uma licitante que se manteve inerte, e que s\u00f3 se manifestou ap\u00f3s o t\u00e9rmino do tempo concedido, seria uma quebra inaceit\u00e1vel da isonomia em rela\u00e7\u00e3o aos demais concorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o, aqui, \u00e9 sobre a precis\u00e3o. A Nova Lei de Licita\u00e7\u00f5es nos confere uma margem maior para o saneamento de falhas, mas essa flexibilidade n\u00e3o pode ser confundida com arb\u00edtrio. As regras e os prazos devem ser claros no edital e, uma vez estabelecidos, devem ser aplicados com isonomia. A dilig\u00eancia \u00e9 um instrumento para garantir a sele\u00e7\u00e3o da melhor proposta, n\u00e3o para socorrer indefinidamente a licitante que falha em cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es mais b\u00e1sicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o TCU, a in\u00e9rcia da empresa em cumprir a determina\u00e7\u00e3o ou, ao menos, em solicitar a prorroga\u00e7\u00e3o do prazo de forma tempestiva, &#8220;atraiu para si a responsabilidade exclusiva pelo desfecho&#8221; (BRASIL, 2025, p. 14).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. O PONTO DE VIRADA: A INABILITA\u00c7\u00c3O DO SEGUNDO COLOCADO E A MIOPIA NORMATIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se a primeira inabilita\u00e7\u00e3o foi um exerc\u00edcio de rigor edital\u00edcio, a segunda revelou-se um grave erro de interpreta\u00e7\u00e3o da lei e do mercado, que acabou por viciar todo o resultado do certame. A empresa 2., segunda colocada e detentora de uma proposta apenas R$ 1.000,00 acima da primeira, foi inabilitada por n\u00e3o atender a uma exig\u00eancia de qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica espec\u00edfica: a comprova\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia na instala\u00e7\u00e3o de, no m\u00ednimo, dois elevadores com &#8220;seis paradas&#8221; cada. A empresa apresentou atestados que comprovavam a instala\u00e7\u00e3o de equipamentos com cinco paradas.<\/p>\n\n\n\n<p>A licitante defendeu sua decis\u00e3o, argumentando que a exig\u00eancia se justificava pela complexidade de um hospital, onde elevadores s\u00e3o vitais e demandam experi\u00eancia espec\u00edfica para garantir seguran\u00e7a e funcionalidade. O auditor do TCU, em uma an\u00e1lise inicial, chegou a concordar com a tese da Administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o titular da unidade t\u00e9cnica e o Ministro-Relator discordaram veementemente, e \u00e9 na fundamenta\u00e7\u00e3o dessa diverg\u00eancia que reside a li\u00e7\u00e3o mais importante do ac\u00f3rd\u00e3o. O TCU entendeu que a inabilita\u00e7\u00e3o foi <strong>irregular<\/strong>, e a exig\u00eancia, da forma como foi constru\u00edda, configurou uma <strong>restri\u00e7\u00e3o indevida e ilegal \u00e0 competitividade<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O racioc\u00ednio do Tribunal desmontou a aparente legalidade do ato, apontando para uma falha profunda na modelagem do edital, uma verdadeira &#8220;miopia normativa&#8221; que ignorou tanto a realidade do setor da constru\u00e7\u00e3o quanto as ferramentas que a nova lei oferece para lidar com ela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.1 A Realidade do Mercado Versus a Letra Fria do Edital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Ministro-Relator foi direto ao ponto: &#8220;A an\u00e1lise do auditor deixou de enfrentar o argumento central que define o caso: a exig\u00eancia, da forma como foi posta, ignora a realidade do mercado da constru\u00e7\u00e3o civil e, ainda, uma permiss\u00e3o expressa na lei&#8221; (BRASIL, 2025, p. 14).<\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 essa realidade? A instala\u00e7\u00e3o de elevadores \u00e9 uma atividade de alt\u00edssima especializa\u00e7\u00e3o, dominada por um pequeno n\u00famero de fabricantes globais. N\u00e3o \u00e9 a construtora civil que, em regra, instala o equipamento, mas sim a empresa especializada que o fabricou ou sua representante credenciada. Exigir que a construtora, cujo <em>core business<\/em> \u00e9 a edifica\u00e7\u00e3o, tivesse em seu pr\u00f3prio acervo t\u00e9cnico um atestado para uma atividade t\u00e3o espec\u00edfica era, na pr\u00e1tica, criar uma barreira artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>O edital da licitante cometeu um duplo erro que, combinado, tornou a exig\u00eancia fatalmente restritiva (BRASIL, 2025):<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Vedou a subcontrata\u00e7\u00e3o<\/strong> dos itens de maior relev\u00e2ncia, incluindo os elevadores.<\/li>\n\n\n\n<li>Exigiu que a <strong>pr\u00f3pria construtora<\/strong> comprovasse a experi\u00eancia, em vez de permitir que essa capacidade fosse demonstrada por quem de fato a executaria.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o &#8220;criou uma barreira de qualifica\u00e7\u00e3o artificial e ilegal&#8221; (BRASIL, 2025, p. 15), pois fechou a porta para empresas perfeitamente capazes de gerenciar a constru\u00e7\u00e3o do hospital e contratar os melhores especialistas do mercado para a instala\u00e7\u00e3o dos elevadores. A irregularidade foi agravada por um fato revelado nos autos: a exig\u00eancia de qualifica\u00e7\u00e3o para os elevadores sequer constava na primeira vers\u00e3o do edital, tendo sido inserida apenas na republica\u00e7\u00e3o, sem uma motiva\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica clara que justificasse sua inclus\u00e3o tardia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.2 A Ferramenta Ignorada: O Art. 67, \u00a7 9\u00ba, da Lei 14.133\/2021<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A miopia do edital n\u00e3o foi apenas ignorar o mercado, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria lei que o regia. O legislador da Lei 14.133\/2021, ciente dessas din\u00e2micas setoriais, criou um mecanismo espec\u00edfico para evitar esse tipo de restri\u00e7\u00e3o. Trata-se do Art. 67, \u00a7 9\u00ba, que o TCU apontou como a chave para a resolu\u00e7\u00e3o do caso:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Art. 67. [&#8230;] \u00a7 9\u00ba O edital poder\u00e1 prever, para aspectos t\u00e9cnicos espec\u00edficos, que a qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica seja demonstrada por meio de atestados relativos a potencial subcontratado, limitado a 25% (vinte e cinco por cento) do objeto a ser licitado, hip\u00f3tese em que mais de um licitante poder\u00e1 apresentar atestado relativo ao mesmo potencial subcontratado.&#8221; (BRASIL, 2021)<\/p>\n\n\n\n<p>A finalidade da norma, como ressaltou o Ministro-Relator, \u00e9 clara: &#8220;permitir que a capacidade t\u00e9cnica para executar uma parcela especializada do objeto seja demonstrada por quem efetivamente a executar\u00e1, no caso, o subcontratado&#8221; (BRASIL, 2025, p. 15).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9, talvez, a li\u00e7\u00e3o mais estrat\u00e9gica de todo o ac\u00f3rd\u00e3o. A Lei 14.133\/2021 n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de veda\u00e7\u00f5es e obriga\u00e7\u00f5es; \u00e9 tamb\u00e9m uma caixa de ferramentas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do agente de contrata\u00e7\u00e3o. O Art. 67, \u00a7 9\u00ba, \u00e9 uma dessas ferramentas, projetada para harmonizar a seguran\u00e7a da qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica com a necessidade de ampla competi\u00e7\u00e3o. Ao n\u00e3o a utilizar \u2014 e, pior, ao vedar a subcontrata\u00e7\u00e3o que a viabilizaria \u2014, a entidade n\u00e3o cometeu um mero formalismo excessivo, mas uma ilegalidade que resultou em preju\u00edzo direto ao er\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. A DECIS\u00c3O DO CONTROLE: ENTRE A ANULA\u00c7\u00c3O E A RAZOABILIDADE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez constatada a irregularidade grave na inabilita\u00e7\u00e3o da segunda colocada, restava ao TCU definir o rem\u00e9dio. A anula\u00e7\u00e3o completa do certame, embora uma op\u00e7\u00e3o, foi descartada por n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o mais adequada, pois implicaria em atrasos incalcul\u00e1veis para a constru\u00e7\u00e3o do hospital e no risco de n\u00e3o se obter novamente os pre\u00e7os competitivos da fase de lances.<\/p>\n\n\n\n<p>A Corte optou, ent\u00e3o, por um caminho que prestigia a legalidade, a efici\u00eancia e a economicidade: a aplica\u00e7\u00e3o do <strong>princ\u00edpio do aproveitamento dos atos processuais v\u00e1lidos<\/strong>. Esse princ\u00edpio orienta o controle a preservar as etapas do procedimento que n\u00e3o foram contaminadas pela irregularidade, corrigindo-se apenas o ato viciado.<\/p>\n\n\n\n<p>A determina\u00e7\u00e3o do TCU foi, portanto, cir\u00fargica:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Anular o Contrato n\u00ba 022\/2025-SIN<\/strong>, firmado com o quarto colocado, pois sua validade dependia da inabilita\u00e7\u00e3o irregular que o antecedeu.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Anular o ato que inabilitou a segunda colocada.<\/strong> e os atos subsequentes.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Retornar a Concorr\u00eancia \u00e0 fase de julgamento de propostas<\/strong>, para que a Administra\u00e7\u00e3o procedesse a uma rean\u00e1lise completa da proposta e da habilita\u00e7\u00e3o da segunda colocada, desta vez aplicando corretamente o Art. 67, \u00a7 9\u00ba, da Lei 14.133\/2021.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental notar que o retorno de fase n\u00e3o significa uma &#8220;segunda chance&#8221; para quem j\u00e1 foi regularmente exclu\u00eddo. O TCU fez quest\u00e3o de assentar que a inabilita\u00e7\u00e3o da primeira colocada, por ter sido considerada regular, permanecia um ato jur\u00eddico perfeito e inalterado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o Tribunal ainda expediu uma importante <strong>ci\u00eancia<\/strong> \u00e0 entidade: para fins de fiscaliza\u00e7\u00e3o, a execu\u00e7\u00e3o de uma obra se inicia com a pr\u00e1tica de qualquer ato material no local (demoli\u00e7\u00e3o, terraplanagem, etc.), independentemente da data de emiss\u00e3o da ordem de servi\u00e7o. Um recado claro contra a dissocia\u00e7\u00e3o entre a execu\u00e7\u00e3o f\u00e1tica e a formal, que pode ser usada para contornar decis\u00f5es do controle.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00f4nica da Concorr\u00eancia \u00e9 um poderoso lembrete de que, no universo das contrata\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o diabo e a salva\u00e7\u00e3o moram nos detalhes. O Ac\u00f3rd\u00e3o 1923\/2025 do TCU nos mostra que a Lei 14.133\/2021, mais do que um novo c\u00f3digo de regras, exige dos agentes p\u00fablicos, uma nova postura: a de gestores estrat\u00e9gicos, que n\u00e3o apenas seguem a norma, mas a interpretam em sintonia com a realidade do mercado e com o objetivo final de selecionar a proposta efetivamente mais vantajosa.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o nos ensina que o rigor na aplica\u00e7\u00e3o de prazos \u00e9 leg\u00edtimo, mas que a rigidez cega na qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica pode ser ilegal e danosa ao er\u00e1rio. Mostra que a nova lei nos deu ferramentas flex\u00edveis e inteligentes, como a possibilidade de comprova\u00e7\u00e3o de capacidade por subcontratados, e que nosso dever \u00e9 conhec\u00ea-las e utiliz\u00e1-las com sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Que a hist\u00f3ria desta licita\u00e7\u00e3o anulada n\u00e3o seja vista como um caso de fracasso, mas como uma b\u00fassola. Que ela nos guie na constru\u00e7\u00e3o de editais que sejam, ao mesmo tempo, rigorosos e razo\u00e1veis, competitivos e seguros. Pois nosso papel n\u00e3o se resume a conduzir processos, mas a viabilizar, com efici\u00eancia e legalidade, a entrega de obras e servi\u00e7os que transformam a vida dos cidad\u00e3os. E essa miss\u00e3o, como nos lembra o TCU, come\u00e7a na intelig\u00eancia com que redigimos cada cl\u00e1usula do edital.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BRASIL. Lei n\u00ba 14.133, de 1\u00ba de abril de 2021. Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos. Bras\u00edlia, DF: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, [2021]. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/l14133.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/l14133.htm<\/a>. Acesso em: 19 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>BRASIL. Tribunal de Contas da Uni\u00e3o. <strong>Ac\u00f3rd\u00e3o n\u00ba 1923\/2025 \u2013 Plen\u00e1rio<\/strong>. Processo TC 009.048\/2025-1. Den\u00fancia. Relator: Ministro Bruno Dantas. Sess\u00e3o de 20 de agosto de 2025. Bras\u00edlia, DF: TCU, 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. INTRODU\u00c7\u00c3O Agentes p\u00fablicos que atuam na linha de frente das contrata\u00e7\u00f5es, convivem diariamente com a tens\u00e3o entre a urg\u00eancia [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":93,"featured_media":2427,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[5,748,3],"tags":[],"coauthors":[755],"class_list":["post-2426","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contratacoes","category-licitacao","category-nova-lei-de-licitacoes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/93"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2426"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2428,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2426\/revisions\/2428"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2426"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=2426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}