{"id":2838,"date":"2026-08-14T14:26:08","date_gmt":"2026-08-14T17:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/?p=2838"},"modified":"2026-08-18T16:37:25","modified_gmt":"2026-08-18T19:37:25","slug":"a-territorializacao-da-vantajosidade-nas-adesoes-a-atas-de-registro-de-precos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jmlgrupo.com.br\/blog\/a-territorializacao-da-vantajosidade-nas-adesoes-a-atas-de-registro-de-precos\/","title":{"rendered":"A TERRITORIALIZA\u00c7\u00c3O DA VANTAJOSIDADE NAS ADES\u00d5ES A ATAS DE REGISTRO DE PRE\u00c7OS"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 l\u00edcito a um Tribunal de Contas hierarquizar territorialmente a escolha da ata de registro de pre\u00e7os a que um \u00f3rg\u00e3o jurisdicionado pretenda aderir, subordinando a vantajosidade da contrata\u00e7\u00e3o ao pertencimento geogr\u00e1fico do&nbsp;\u00f3rg\u00e3o&nbsp;gerenciador?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A indaga\u00e7\u00e3o assume relev\u00e2ncia pr\u00e1tica imediata, especialmente diante dos impactos que a Delibera\u00e7\u00e3o pode produzir sobre as futuras ades\u00f5es a atas de registro de pre\u00e7os pelos jurisdicionados paulistas, pois o&nbsp;art. 5\u00ba da Delibera\u00e7\u00e3o do TCE-SP (SEI n\u00ba 0005763\/2025-11), publicada em 9 de julho de 2026, imp\u00f5e aos jurisdicionados uma ordem de prefer\u00eancia para a ades\u00e3o a atas na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o&nbsp;participantes.<sup>1<\/sup>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 tratamos, em textos anteriores, dos riscos da&nbsp;ades\u00e3o indiscriminada como atalho ao dever de&nbsp;planejamento,<sup>2<\/sup>&nbsp;da&nbsp;imprescindibilidade da Inten\u00e7\u00e3o de Registro de Pre\u00e7os&nbsp;como pressuposto&nbsp;da&nbsp;carona<sup>3<\/sup>&nbsp;e da&nbsp;exig\u00eancia&nbsp;de estrutura t\u00e9cnica, jur\u00eddica e administrativa m\u00ednima dos cons\u00f3rcios p\u00fablicos que atuam como gerenciadores de licita\u00e7\u00f5es&nbsp;compartilhadas.<sup>4<\/sup>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A precitada&nbsp;Delibera\u00e7\u00e3o, contudo, inaugura uma preocupa\u00e7\u00e3o de outra natureza, at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o enfrentada, qual seja, a da territorialidade como crit\u00e9rio de prefer\u00eancia na escolha da ata&nbsp;cuja ades\u00e3o se pretenda formalizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que disp\u00f5e o art. 5\u00ba da Delibera\u00e7\u00e3o?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Consoante preconiza a Delibera\u00e7\u00e3o, a ades\u00e3o, no \u00e2mbito&nbsp;dos \u00f3rg\u00e3os e entidades do Estado de S\u00e3o Paulo, deve recair, preferencialmente, sobre atas de gerenciadores do pr\u00f3prio Estado.&nbsp;J\u00e1 no&nbsp;\u00e2mbito das Administra\u00e7\u00f5es municipais paulistas, a prefer\u00eancia obedece a uma&nbsp;escala descendente, primeiro em favor de atas do pr\u00f3prio Munic\u00edpio, depois de atas de outros Munic\u00edpios paulistas, e, por \u00faltimo, de atas gerenciadas por \u00f3rg\u00e3os e entidades do Estado de S\u00e3o Paulo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ades\u00e3o a atas gerenciadas por \u00f3rg\u00e3os de fora do Estado somente \u00e9 admitida mediante justificativa expressa e motivada que demonstre, cumulativamente, a inexist\u00eancia de solu\u00e7\u00e3o equivalente no Estado de S\u00e3o Paulo e a efetiva vantajosidade da contrata\u00e7\u00e3o pretendida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se, \u00e0 primeira vista, de disciplina que se insere na tradi\u00e7\u00e3o do controle externo paulista de restringir a ades\u00e3o a hip\u00f3teses excepcionais e devidamente fundamentadas, tal como j\u00e1 fizera&nbsp;o verbete da S\u00famula n\u00ba 33 do pr\u00f3prio TCE-SP ao vedar, como regra, a figura da carona, ressalvadas as hip\u00f3teses expressamente admitidas em lei federal. N\u00e3o obstante, a hierarquiza\u00e7\u00e3o territorial vai al\u00e9m da simples exig\u00eancia de motiva\u00e7\u00e3o. Ela estabelece uma escala de preced\u00eancia que, antes de a vantajosidade ser aferida em concreto, j\u00e1 pressup\u00f5e que a ata mais pr\u00f3xima geograficamente \u00e9, em princ\u00edpio, a mais adequada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que a&nbsp;hierarquia&nbsp;territorial&nbsp;n\u00e3o carece de racionalidade, uma vez que as Atas&nbsp;gerenciadas no pr\u00f3prio Estado facilitam a fiscaliza\u00e7\u00e3o concomitante, reduzem riscos log\u00edsticos de execu\u00e7\u00e3o e podem fomentar a economia regional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sob essa \u00f3tica, a hierarquia poderia ser compreendida, em uma primeira leitura, como uma presun\u00e7\u00e3o relativa de vantajosidade, erigida em favor das atas territorialmente mais pr\u00f3ximas, e que se destina a orientar o gestor p\u00fablico na fase de pesquisa e compara\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os exigida pelo&nbsp;art.&nbsp;23&nbsp;da&nbsp;Lei n\u00ba 14.133\/2021, sem, contudo, afastar a possibilidade de a ata mais vantajosa estar sediada fora do Estado de S\u00e3o Paulo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hip\u00f3tese, a exig\u00eancia de justificativa cumulativa (inexist\u00eancia de solu\u00e7\u00e3o equivalente e efetiva vantajosidade) operaria como simples refor\u00e7o instrut\u00f3rio, e n\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma de validade&nbsp;da ades\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os riscos de uma hierarquia r\u00edgida<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre, no entanto, que uma leitura mais rigorosa do&nbsp;art.&nbsp;5\u00ba&nbsp;da Delibera\u00e7\u00e3o&nbsp;revela risco de a hierarquia territorial operar, na pr\u00e1tica, como condi\u00e7\u00e3o adicional n\u00e3o prevista na lei federal, e n\u00e3o como simples presun\u00e7\u00e3o&nbsp;afast\u00e1vel&nbsp;por elementos concretos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;art.&nbsp;86 da&nbsp;Lei n\u00ba 14.133\/2021, ao disciplinar a ades\u00e3o de n\u00e3o participantes, condiciona-a \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de vantajosidade, \u00e0 observ\u00e2ncia de limites quantitativos e \u00e0 anu\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o gerenciador e do fornecedor, sem estabelecer, em nenhum momento, hierarquia de origem geogr\u00e1fica da ata como pressuposto de validade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De igual forma,&nbsp;o art.&nbsp;23,&nbsp;da mesma lei,&nbsp;que disciplina a pesquisa de pre\u00e7os,&nbsp;n\u00e3o distingue a vantajosidade em raz\u00e3o do territ\u00f3rio de onde&nbsp;emana&nbsp;a proposta. Antes, a lei elege a busca da&nbsp;proposta apta a gerar o resultado&nbsp;mais vantajoso&nbsp;como objetivo a ser perseguido&nbsp;(art.&nbsp;11, inciso I), sem, todavia,&nbsp;subordin\u00e1-lo a crit\u00e9rios de proximidade territorial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vantajosidade, enquanto conceito jur\u00eddico indeterminado, demanda aprecia\u00e7\u00e3o casu\u00edstica, incompat\u00edvel com presun\u00e7\u00f5es absolutas fundadas exclusivamente em crit\u00e9rios territoriais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, \u00e9 de bom alvitre indagar se a&nbsp;Delibera\u00e7\u00e3o, a pretexto de orientar os jurisdicionados, n\u00e3o estaria,&nbsp;<em>ipso facto<\/em>, criando condi\u00e7\u00e3o adicional para a ades\u00e3o, mat\u00e9ria que, por for\u00e7a do&nbsp;art.&nbsp;22, inciso XXVII, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, \u00e9 de compet\u00eancia privativa da Uni\u00e3o para o estabelecimento de normas gerais de licita\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se desconhece&nbsp;que os Tribunais de Contas possuem poder normativo secund\u00e1rio, voltado a disciplinar aspectos procedimentais e de controle interno das contrata\u00e7\u00f5es realizadas por seus jurisdicionados.&nbsp;N\u00e3o obstante, esse poder normativo encontra limite intranspon\u00edvel na impossibilidade de criar, por&nbsp;norma&nbsp;administrativa, requisito material de validade do ato de ades\u00e3o que n\u00e3o encontre correspond\u00eancia, ainda que impl\u00edcita, na legisla\u00e7\u00e3o federal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, verifica-se que o&nbsp;pr\u00f3prio TCE-SP fundamentou seu poder normativo no&nbsp;art.&nbsp;2\u00ba,&nbsp;inciso&nbsp;XXIII, da&nbsp;Lei Complementar n\u00ba 709\/1993,<sup>5<\/sup>&nbsp;que autoriza&nbsp;expedir&nbsp;<em>\u201cexpedir atos e instru\u00e7\u00f5es normativas, sobre mat\u00e9ria de suas atribui\u00e7\u00f5es e sobre a organiza\u00e7\u00e3o de processos que lhe devam ser submetidos, obrigando a seu cumprimento, sob pena de responsabilidade\u201d<\/em>. Essa compet\u00eancia, contudo, \u00e9 circunscrita \u00e0 disciplina procedimental e fiscalizat\u00f3ria, n\u00e3o alcan\u00e7ando, a nosso modesto ju\u00edzo,&nbsp;a cria\u00e7\u00e3o de requisito material de validade de ato de gest\u00e3o contratual do&nbsp;jurisdicionado.<sup>6<\/sup>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Destarte, se a hierarquia territorial for interpretada e aplicada como condi\u00e7\u00e3o absoluta, capaz de, por si s\u00f3, inquinar de irregularidade a ades\u00e3o a ata mais vantajosa apenas por estar sediada fora do Estado de S\u00e3o Paulo, sem embargo de estarem preenchidos os requisitos materiais do&nbsp;art.&nbsp;86 da&nbsp;Lei n\u00ba&nbsp;14.133\/2021, a delibera\u00e7\u00e3o incorrer\u00e1 em excesso normativo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, situa\u00e7\u00e3o diversa se verifica quando a hierarquia \u00e9 compreendida como standard de instru\u00e7\u00e3o processual, a exigir do gestor maior densidade probat\u00f3ria para justificar&nbsp;ades\u00f5es a atas externas ao Estado, sem, contudo, impedir a ades\u00e3o quando a vantajosidade, aferida em concreto, apontar em sentido diverso da proximidade geogr\u00e1fica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00edntese conclusiva&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 pergunta que abriu este texto, sobre se \u00e9 dado ao Tribunal de Contas hierarquizar territorialmente a escolha da ata a que um \u00f3rg\u00e3o jurisdicionado pretenda aderir, subordinando a vantajosidade ao pertencimento geogr\u00e1fico do gerenciador, a resposta h\u00e1 de ser matizada.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hierarquia do art. 5\u00ba da Delibera\u00e7\u00e3o&nbsp;pode se&nbsp;revelar&nbsp;compat\u00edvel com o ordenamento enquanto orienta\u00e7\u00e3o, apta a operar como presun\u00e7\u00e3o relativa de vantajosidade e a exigir densidade probat\u00f3ria refor\u00e7ada nas ades\u00f5es a atas externas ao Estado&nbsp;de S\u00e3o Paulo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se sustenta, contudo, como condi\u00e7\u00e3o absoluta de validade, pois, assim compreendida, extrapola os limites do poder normativo do TCE-SP, circunscrito pelo art. 2\u00ba, inciso XXIII, da Lei Complementar n\u00ba 709\/1993,&nbsp;\u00e0 disciplina procedimental e fiscalizat\u00f3ria, e cria, por norma infralegal, requisito material&nbsp;n\u00e3o previsto na&nbsp;Lei n\u00ba 14.133\/2021,&nbsp;invadindo, assim,&nbsp;a compet\u00eancia privativa da Uni\u00e3o para dispor sobre normas gerais de licita\u00e7\u00e3o (art. 22, inciso XXVII, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe ao TCE-SP e aos \u00f3rg\u00e3os jurisdicionados, portanto, tratar a proximidade territorial como um elemento a mais na instru\u00e7\u00e3o do processo de ades\u00e3o, e n\u00e3o como um veto antecipado \u00e0 vantajosidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do contr\u00e1rio, o instrumento concebido para refor\u00e7ar a economicidade regional poder\u00e1&nbsp;se&nbsp;converter em fator de restri\u00e7\u00e3o indevida \u00e0 competi\u00e7\u00e3o administrativa, deslocando o eixo decis\u00f3rio da busca da proposta mais vantajosa para um crit\u00e9rio territorial que o legislador federal deliberadamente n\u00e3o elegeu como elemento de validade da ades\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 l\u00edcito a um Tribunal de Contas hierarquizar territorialmente a escolha da ata de registro de pre\u00e7os a que um 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