Porque o profissional mais crítico da sua Estratégia de IA não é um Cientista de Dados.

Nos artigos anteriores, desenhamos a arquitetura de uma estratégia de IA robusta. Falamos sobre fundações de dados, estruturas de governança e o potencial disruptivo da tecnologia. Foi um exercício de estratégia, de planejamento. Agora, saímos da prancheta e entramos no canteiro de obras.

Nas próximas semanas, nossa linha editorial mergulha na fase mais crítica e complexa de qualquer projeto: a execução. Falaremos sobre a liderança na prática, navegando as fricções humanas e os atritos organizacionais que surgem quando a estratégia encontra a realidade. E o primeiro, e mais fundamental, elemento da execução são as pessoas.

A narrativa de mercado criou uma obsessão perigosa em torno do talento em IA. A crença generalizada é que o sucesso depende de vencer uma guerra por PhDs em machine learning e engenheiros de software. É uma miragem. O fracasso de iniciativas de IA raramente se deve à falta de sofisticação técnica. Ele se deve, na esmagadora maioria das vezes, à aplicação de um poder de fogo técnico extraordinário para resolver o problema de negócio errado.

É o equivalente a contratar o melhor mestre de obras do mercado para construir um prédio com a planta errada. A execução será impecável, o orçamento será cumprido, mas o resultado final será um edifício inútil.

Na prática, observo um abismo em muitas organizações. De um lado, líderes de negócio que falam a língua do P&L (ou DRE), do VGV, do risco e do market share. Eles sentem a dor, mas não conseguem articulá-la como um problema analítico preciso. Do outro lado, equipes técnicas brilhantes que falam a língua dos algoritmos, das arquiteturas de dados e das métricas de acurácia. Eles constroem soluções, mas frequentemente em resposta a uma premissa de negócio mal formulada.

Entre esses dois mundos existe o que chamo de vácuo de tradução. É nesse vácuo que o valor dos investimentos em IA evapora. Pior: a promessa não é entregue, e a própria IA cai no descrédito, envenenando a cultura de inovação.

Inevitavelmente, surge a voz do ceticismo: ‘Eu avisei‘.

E raramente se ouve aquele que não busca culpados, mas as causas do insucesso para corrigi-las.

Para preencher esse vácuo, as empresas não precisam de mais um PhD. Elas precisam de um perfil diferente, um profissional que eu chamo de Tradutor de Negócios.

Este indivíduo não é necessariamente o melhor programador nem o estrategista mais sênior. Sua principal habilidade é ser bilíngue. Ele compreende a complexidade da tecnologia o suficiente para saber o que é possível, mas sua lealdade primária é com o problema de negócio. Sua missão não é construir o modelo mais elegante, mas garantir que o modelo certo seja construído para gerar o máximo de valor.

Este profissional é o guardião da pergunta mais importante do processo: “Estamos resolvendo o problema que realmente importa?“.

O valor deste perfil não está em seu diploma, mas em três competências práticas:

  1. Investigação de Problemas. O Tradutor atua como um detetive. Ele não aceita a descrição inicial do problema. Ele conduz uma “sondagem”, questionando stakeholders, mergulhando nos processos e nos dados para descobrir a causa raiz do desafio de negócio. Sua primeira entrega não é uma solução, é a formulação correta e validada do problema.
  2. Viabilidade Estratégica. Após definir o problema, ele avalia se a solução vale o esforço. Uma solução para um problema pode ser tecnicamente fascinante, mas gerar um impacto marginal no negócio. O Tradutor tem a disciplina de descartar projetos que não movem os ponteiros estratégicos, protegendo os recursos da empresa de serem gastos em “projetos de estimação” tecnológicos.
  3. Storytelling com Dados. Quando um modelo entrega um resultado, a tarefa do Tradutor é converter a complexidade estatística em uma narrativa de negócio clara e acionável. Como argumenta Cassie Kozyrkov, Chief Decision Scientist do Google, a tomada de decisão é o objetivo final. O Tradutor não apresenta um relatório técnico; ele constrói um argumento que leva o C-level a uma decisão informada, focando nas implicações e recomendações, não na metodologia.

A obsessão por contratar apenas talentos técnicos de ponta é uma aposta incompleta. Sem um sistema de navegação que aponte esse talento para os alvos de maior valor, a maior parte do seu poder de fogo será desperdiçada.

Por isso, a primeira contratação ou o primeiro desenvolvimento de talento em sua jornada de IA não deveria ser, necessariamente, um cientista de dados. Deveria ser um Tradutor de Negócios.

É este profissional que transformará seu investimento em tecnologia de um centro de custo em um motor de geração de valor.

#Liderança #Estratégia #InteligenciaArtificial #Talento #Inovação #TransformaçãoDigital

O conteúdo deste artigo reflete a posição do autor e não, necessariamente, a do Grupo JML.

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